{"id":129,"date":"2020-07-29T20:10:59","date_gmt":"2020-07-29T20:10:59","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.harvard.edu\/emanuelpessoa\/?p=129"},"modified":"2020-07-29T20:10:59","modified_gmt":"2020-07-29T20:10:59","slug":"o-tamanho-da-crise-que-vamos-encarar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.blogs.harvard.edu\/emanuelpessoa\/2020\/07\/29\/o-tamanho-da-crise-que-vamos-encarar\/","title":{"rendered":"O tamanho da crise que vamos encarar"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 senso comum na Economia que as crises econ\u00f4micas podem resultar em curvas de crescimento de tr\u00eas tipos: \u201cV\u201d, \u201cU\u201d e \u201cL\u201d, por ordem de gravidade. Quando estamos diante de um choque econ\u00f4mico em \u201cV\u201d, a demanda sofre uma contra\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria, sem efeitos reais no futuro, sendo seguida por uma r\u00e1pida expans\u00e3o e um retorno ao n\u00edvel de crescimento que se verificava antes da crise.<\/p>\n<p>Assim, as consequ\u00eancias desse tipo de crise s\u00e3o limitadas no tempo ao per\u00edodo em que ela foi experimentada. Estatisticamente, as principais epidemias e pandemias de gripe dos \u00faltimos 100 anos levaram a choques econ\u00f4micos em \u201cV\u201d, inclusive no caso da Gripe Espanhola, que matou mais de 600 mil pessoas apenas nos Estados Unidos e cerca de 50 milh\u00f5es no mundo todo. Essa tamb\u00e9m era a expectativa quanto ao novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p class=\"amp-wp-668e0a1\">Entretanto, o que determina se uma crise econ\u00f4mica seguir\u00e1 um determinado padr\u00e3o \u00e9 o quanto a estrutura da economia ser\u00e1 atingida. Na crise em \u201cU\u201d, a economia n\u00e3o retoma o ritmo pr\u00e9-crise, o que significa que a riqueza que seria criada futuramente foi destru\u00edda. Se a crise for em \u201cL\u201d, a destrui\u00e7\u00e3o de valor futuro \u00e9 crescente, resultando em uma situa\u00e7\u00e3o ainda mais dram\u00e1tica.<\/p>\n<p class=\"amp-wp-668e0a1\">De acordo com um estudo do Boston Consulting Group, de 18 de mar\u00e7o, que, entre outros temas, trata dessas possibilidades geom\u00e9tricas dos choques econ\u00f4micos, para que a crise adquirisse um formato em \u201cU\u201d, seria necess\u00e1rio que ocorressem tantas mortes que se reduzisse a oferta da m\u00e3o-de-obra, houvesse um decr\u00e9scimo do estoque de capital com a queda dos investimentos, e, consequentemente, uma queda da produtividade.<\/p>\n<p class=\"amp-wp-668e0a1\">\u201cPara que ocorra o cen\u00e1rio mais grave, de recess\u00e3o em \u201cL\u201d, a mortalidade deveria se repetir ano a ano, o cr\u00e9dito e o investimento diminu\u00edrem continuamente, e ocorrer uma ruptura institucional ou a interrup\u00e7\u00e3o dos processos produtivos.<\/p>\n<p class=\"amp-wp-668e0a1\">Embora isso n\u00e3o pare\u00e7a prov\u00e1vel, a atual pandemia pode ir al\u00e9m da recess\u00e3o em \u201cV\u201d, causando uma crise em \u201cU\u201d, especialmente se os trabalhadores e as empresas n\u00e3o forem socorridos a tempo e de forma adequada.<\/p>\n<p class=\"amp-wp-668e0a1\">Um outro estudo do BCG, este elaborado pela sua For\u00e7a Tarefa COVID no Brasil, o estrondoso percentual de 70% (setenta por cento) das fam\u00edlias nas favelas j\u00e1 perdeu renda. 86% (oitenta e seis por cento) delas passariam fome em at\u00e9 um m\u00eas sem renda, sendo que 32% (trinta e dois por cento) poderiam comprar comida somente na primeira semana. Esses n\u00fameros podem ser melhores na classe m\u00e9dia, mas s\u00e3o um retrato de como a maior parte dos brasileiros trabalha para viver, n\u00e3o tendo reservas para suportar sequer uma quarentena curta.<\/p>\n<p class=\"amp-wp-668e0a1\">O estat\u00edstico alem\u00e3o Ernst Engel criou uma Lei da Economia que leva seu nome, segundo a qual quanto maior a renda de uma pessoa, menor a propor\u00e7\u00e3o de sua renda gasta com comida. Portanto, o pouco f\u00f4lego financeiro que os brasileiros t\u00eam para comprar alimentos na situa\u00e7\u00e3o atual demonstra que eles t\u00eam menos ainda para gastar com outras coisas, revelando uma situa\u00e7\u00e3o calamitosa para os demais setores da economia.<\/p>\n<p class=\"amp-wp-668e0a1\">Se n\u00e3o forem adotadas medidas que garantam uma renda m\u00ednima para a massa trabalhadora que se encontra em casa, n\u00e3o teremos, no Brasil, um quadro de demanda reprimida ao final da pandemia, mas de falta de demanda, por impossibilidade pura e simples dos consumidores potenciais de gastarem.<\/p>\n<p class=\"amp-wp-668e0a1\">O ciclo seria vicioso. Mais empresas quebrariam, perdendo seus investimentos, e as que sobrevivessem se veriam for\u00e7adas a reduzir seus investimentos, o que poderia nos conduzir a uma recess\u00e3o em \u201cU\u201d, com empobrecimento efetivo da popula\u00e7\u00e3o. A persistir esse quadro, poder\u00edamos cair na recess\u00e3o em \u201cL\u201d.<\/p>\n<p class=\"amp-wp-668e0a1\">Garantindo uma renda m\u00ednima para a popula\u00e7\u00e3o, o Governo vai assegurar a demanda t\u00e3o necess\u00e1ria para a retomada da economia. Embora o coronavoucher n\u00e3o seja suficiente para manter a renda no n\u00edvel pr\u00e9-pandemia, ele \u00e9 um passo importante. Al\u00e9m do imperativo econ\u00f4mico, h\u00e1 uma raz\u00e3o ainda mais importante para o Estado socorrer as pessoas que est\u00e3o sem renda nesta crise.<\/p>\n<p class=\"amp-wp-668e0a1\">Como bem colocado pela antrop\u00f3loga Margaret Mead, a primeira evid\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um f\u00eamur quebrado que foi recuperado. Na natureza, quando um animal quebra a pata, ele n\u00e3o consegue buscar alimento nem fugir dos predadores. \u00c9 uma senten\u00e7a de morte. O osso recuperado significa que algu\u00e9m gastou tempo cuidando daquela pessoa, alimentando-a e protegendo-a. Na vida em sociedade, precisamos proteger uns aos outros, especialmente na hora da necessidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>*Emanuel Pessoa, consultor em Pol\u00edtica Econ\u00f4mica Internacional e advogado especialista em Negocia\u00e7\u00e3o, Contratos, Inova\u00e7\u00e3o e Internacionaliza\u00e7\u00e3o de Empresas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fonte:\u00a0<a href=\"https:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/fausto-macedo\/o-tamanho-da-crise-que-vamos-encarar\/?amp\">https:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/fausto-macedo\/o-tamanho-da-crise-que-vamos-encarar\/?amp<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 senso comum na Economia que as crises econ\u00f4micas podem resultar em curvas de crescimento de tr\u00eas tipos: \u201cV\u201d, \u201cU\u201d e \u201cL\u201d, por ordem de gravidade. 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